Dia Eterno de Amor

Os dias deviam de ser eternos de amor
Como as manhãs de Outono que nos saúdam de nostalgia
Dos beijos húmidos com quais nos acarinhamos
E as noites, essas de Verão, tórridas
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Os dias deviam de ser eternos de amor
Como as manhãs de Outono que nos saúdam de nostalgia
Dos beijos húmidos com quais nos acarinhamos
E as noites, essas de Verão, tórridas
A poesia, às vezes, é solene, é de cerimónia. Veste um fraque ou um vestido de gala. É erudita nas conversas. Convive em soirées. Já pouco se encontra a poesia no campo, enquanto guardamos o rebanho, ceifamos o feno ou semeamos. Já pouco se vê a poesia pelos cafés, a bebericar um copo de vinho, a trincar um torresmo ou apressada a tomar café. E não é por ser rica ou pertencer à alta da sociedade, é por aparência. Ficou convencida de tão elaborada que é. Acabou por não se dar com qualquer um.
E se libertássemos a poesia? E se a convidássemos para um copo de vinho? Como quando libertamos o anseio mais íntimo, cada segredo dito a um amigo, a um amante, como nos libertamos no êxtase, sem pudor. Como se fosse libertar a nossa mente de crenças, preconceitos e normas.
Libertar a poesia é como soltar o nosso pensamento. Este pensamento tanta vez perdido na palavra elaborada, no verso que tinha a intenção de fazer apaixonar, arder em desejo quem o lê, agir e não conformar, mas que fica ali, só, de tão elaborado que ele é.
É só dizer, que não é atrevimento nenhum, simplesmente, dizer: estou apaixonado, revoltado, não permito que me amordacem, que sofro, que hoje só me apetece rir, conviver e dizer piadas ou então só soltar palavras. Que sou distinto de uma máquina que executa por comando.
Soltar as palavras, as regras e voltar a mostrar à poesia que somos iguais, que nós também conversamos, dizemos, recitamos e declamamos, num banco de jardim, num café ou enquanto caminhamos. Dizer-lhe que não é preciso vestir-se a rigor, é só descontrair, desfrutar.
A poesia livre.
E às vezes só temos que parar um pouco, ler, sentir e anotar. Não ter medo de sentir.
Reparem no momento em que o poeta é compreendido. Acontece a partir de um só momento, quando pousa a caneta e desliga a luz pela última vez. Depois é dissecado, primeiro o cérebro, depois o coração, os pulmões e, por último, os órgãos genitais. São feitas análises forenses pelos mais variados especialistas. Escrevem-se relatórios da autopsia. Só assim é que se descobre a origem do amor crónico, da revolta que fazia tremer o braço, o sofrer que lhe provocava apneia ou o prazer que latejava e inflamava.