Nuvens

As nuvens retêm a chuva
mas isso já todos sabemos
não sabemos é que retêm sonhos
ou preferimos ignorar tal facto
à espera que no dilúvio sejam soltos
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As nuvens retêm a chuva
mas isso já todos sabemos
não sabemos é que retêm sonhos
ou preferimos ignorar tal facto
à espera que no dilúvio sejam soltos

Hoje não saio. Fico à hora de almoço enclausurado entre uma garfada, um dedo de conversa com o colega que me acompanha à mesa e as paredes do refeitório. Quando chove os bancos do jardim ficam molhados, algo que não devia de acontecer.
As árvores não são suficientes para os resguardar, principalmente no Outono. As gotas da chuva são copiosamente irriquietas e esquivas. Se chove sobre as árvores, as gotas cairão, umas no imediato, outras mais preguiçosas, mas não deixam de serem irriquietas, sobre o banco de jardim.
Isto acontece, mas não me agrada, ver jardins no seu murmúrio próprio da solidão, com os seus bancos a ficarem molhados. Não me agrada ficar retido no ruído do almoço a pensar que bom seria sentar-me num banco de jardim e debruçar-me em linhas de um livro sob a observação das árvores ou textualizar, em surdina, com as árvores.
Não é que não me agrade a chuva, adoro. Quando chove impera um certo silêncio que retira os transeuntes das suas apressadas caminhadas. Eu aproveito, com serenidade, caminhar e ouvir as gotas a caírem irriquietas, a juntarem-se a mim, sobre os meus ombros. Só não gosto do banco de jardim que fica molhado.

Pensei em te estender a mão
e convidar-te
a um abraço
enquanto caminhávamos em passo lento
No entretanto distraí-me
na doce melodia que me encantava
nesses acordes
já não era só um abraço
era mais
Eu contigo dançava
ao ritmo da valsa do teu manear
sem ser esse teu jeito atrevido
mas muito sensual
acompanhado
por cada palavra por ti recitada
eu dançava
Contigo dançava
soltava-me de meus passo trôpegos
do meu jeito sem ritmo
em que as pernas me prendem
e os braços gesticulam movimentos envergonhados
Era isto que eu sonhava
enquanto pela rua caminhávamos
segurar tua anca
e tua mão
enquanto me absorvia, radiante
no teu sorriso
em cada verso teu que me enfeitiça
A rua só para nós
e se dançava
sob a chuva ou no calor
que nada mais é do que provocador
sentir-me a arrepiar
da tua carícia em me abraçar
dançava
e dançava
e dançava